
TRANSSEXUALIDADE - ASPECTOS TEÓRICOS
Adriana Gentile
Embora
existam homens e mulheres homossexuais afeminados e masculinazadas, respectivamente,
na diversidade humana, existem indivíduos que não são homossexuais
e que não se identificam com o seu corpo, os quais são denominados
de transsexuais. É relevante expor que embora seja mais divulgado e conhecido
o transsexualismo homem para mulher (MtF), também existe o mulher para
homem (FtM).
O transsexualismo, segundo o CID-10, F64.0:
Trata-se de um desejo de viver e ser aceito enquanto pessoa do sexo oposto. Este desejo se acompanha em geral de um sentimento de mal estar ou de inadaptação por referência a seu próprio sexo anatômico e do desejo de submeter-se a uma intervenção cirúrgica ou a um tratamento hormonal a fim de tornar seu corpo tão conforme quanto possível ao sexo desejado.
Conforme
Castel (2001), o transexualismo é uma síndrome complexa, caracterizada
pelo sentimento intenso de não-pertença ao sexo anatômico,
sem por isso manifestar distúrbios delirantes, e sem bases orgânicas
(como o hermafroditismo ou qualquer outra anomalia endócrina).
Segundo Athayde (2001), com base em revisão bibliográfica sobre
o tema, aponta que as possíveis causas das desordens de identidade de
gênero podem ser subdivididas em genética, hormonal pré-natal,
social pós-natal e determinantes hormonais pós-puberais, embora
uma etiologia definitiva não possa ainda ser estabelecida. Sem um marcador
biológico, a síndrome tem sido definida apenas por critérios
clínicos. Além disso, atualmente apontam-se algumas diferenças
anatômicas cerebrais entre transexuais e não transexuais, bem como
alguns fatores de "criação" têm sido associados,
sendo que a hipótese mais aceita é de que se trata de uma diferenciação
sexual prejudicada a nível cerebral. Dessa forma, anomalias funcionais
ou morfológicas que interfiram na ação dos androgênios
a nível cerebral podem ser responsáveis pela dissociação
radical entre o sexo psicológico, gonadal, hormonal e fenotípico
no transexualismo. Fatores hormonais (hormônios gonadais ou adrenais,
receptores hormonais, mecanismo de transdução dos sinais hormonais,
neurosteróides, neurotransmissores etc) desempenham um papel importante
na formação da identidade de gênero.
A visão psicanalítica do transexualismo geralmente varia entre
várias teorias. Dentre as quais encontra-se o conceito de desordem narcísica,
na qual a constituição do self encontra-se profundamente prejudicada,
até de que se trata de manifestação de uma aversão
à homossexualidade, ou seja, a única maneira de um indivíduo
poder fazer sexo com outro do mesmo sexo, sem culpa, seria através modificação
hormonal e cirúrgica do seu corpo.
As características diagnósticas (F64.x - TRANSTORNO DA IDENTIDADE DE GÊNERO - DSM.IV), são:
Há dois componentes no Transtorno da Identidade de Gênero, sendo que ambos devem estar presentes para fazer o diagnóstico. Deve haver evidências de uma forte e persistente identificação com o gênero oposto, que consiste do desejo de ser, ou a insistência do indivíduo de que ele é do sexo oposto (Critério A).
Esta identificação com o gênero oposto não deve refletir um mero desejo de quaisquer vantagens culturais percebidas por ser do outro sexo. Também deve haver evidências de um desconforto persistente com o próprio sexo atribuído ou uma sensação de inadequação no papel de gênero deste sexo (Critério B).
O diagnóstico não é feito se o indivíduo tem uma condição intersexual física concomitante (por ex., síndrome de insensibilidade aos andrógenos ou hiperplasia adrenal congênita) (Critério C). Para que este diagnóstico seja feito, deve haver evidências de sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo (Critério D).
Em meninos, a identificação com o gênero oposto é manifestada por uma acentuada preocupação com atividades tradicionalmente femininas. Eles podem manifestar uma preferência por vestir-se com roupas de meninas ou mulheres ou improvisar esses itens a partir de materiais disponíveis, quando os artigos genuínos não estão à sua disposição. Toalhas, aventais e lenços freqüentemente são usados para representar cabelos longos ou saias.
Existe uma forte atração pelos jogos e passatempos estereotípicos de meninas. Pode ser observada uma preferência particular por brincar de casinha, desenhar meninas bonitas e princesas e assistir televisão ou vídeos de suas personagens femininas favoritas. Bonecas estereotipicamente femininas, tais como Barbie, com freqüência são seus brinquedos favoritos, e as meninas são suas companhias preferidas.
Quando brincam de casinha, esses meninos encenam figuras femininas, mais comumente "papéis de mãe", e habitualmente ocupam sua fantasia com figuras femininas. Esses meninos evitam brincadeiras rudes e esportes competitivos e demonstram pouco interesse por carrinhos ou caminhões ou outros brinquedos não-agressivos, porém estereotipicamente masculinos. Eles podem expressar um desejo de ser meninas e declarar que, quando crescerem, serão mulheres. Pode haver, também, uma insistência em urinar sentados e em fingir que não possuem pênis, escondendo-o entre as pernas. Mais raramente, os meninos com Transtorno da Identidade de Gênero podem afirmar que têm aversão por seu pênis ou testículos, que desejam removê-los ou que têm, ou desejam ter, uma vagina.
As meninas com Transtorno da Identidade de Gênero apresentam reações negativas intensas às expectativas ou tentativas dos pais de que se vistam com roupas femininas. Algumas podem recusar-se a comparecer à escola ou a eventos sociais em que essas roupas são exigidas. Elas preferem roupas de menino e cabelos curtos e com freqüência são erroneamente identificadas por estranhos como meninos; elas também podem pedir aos outros que as chamem por nomes masculinos. Seus heróis de fantasia são, com maior freqüência, figuras masculinas poderosas, tais como Batman ou Super-Homem.
Essas meninas preferem brincar com meninos, e com eles compartilham interesses em esportes de contato, brincadeiras rudes e jogos tradicionalmente masculinos. Elas demonstram pouco interesse em bonecas ou em qualquer forma de roupas ou atividades femininas de faz-de-conta. Uma menina com este transtorno pode recusar-se, ocasionalmente, a urinar sentada.
Ela pode afirmar que tem ou terá um pênis e não desejar desenvolver seios ou menstruar. Ela pode declarar que quando crescer será um homem. Essas meninas tipicamente revelam acentuada identificação com o gênero oposto em brincadeiras, sonhos e fantasias.
Os adultos com Transtorno da Identidade de Gênero preocupam-se com seu desejo de viver como um membro do sexo oposto. Esta preocupação pode manifestar-se como um intenso desejo de adotar o papel social do sexo oposto ou adquirir a aparência física do sexo oposto através de manipulação hormonal ou cirúrgica.
Os adultos com este transtorno sentem desconforto ao serem considerados ou funcionarem, na sociedade, como um membro de seu sexo designado. Eles adotam, em variados graus, o comportamento, roupas e maneirismos do sexo oposto. Em sua vida privada, esses indivíduos podem passar muito tempo vestidos como o sexo oposto e trabalhando para que sua aparência seja a do outro sexo. Com roupas do sexo oposto e tratamento hormonal (e, para homens, eletrólise), muitos indivíduos com este transtorno podem passar-se convincentemente por pessoas do sexo oposto.
A atividade sexual desses indivíduos com parceiros do mesmo sexo geralmente é limitada pelo fato de preferirem que os parceiros não vejam nem toquem seus genitais. Para alguns homens que apresentam o transtorno em uma idade mais tardia (freqüentemente após o casamento), a atividade sexual com uma mulher é acompanhada pela fantasia de serem amantes lésbicas ou de que sua parceira é um homem e ele é uma mulher.
Ainda é muito pouca a literatura sobre esse tema e diante da angústia dos indivíduos transsexuais, que leva muitos ao suicídio ou a cirurgias clandestinas, que podem gerar sequelas irreparáveis e até ao óbito, cada vez mais profissionais têm se debruçado sobre o tema, tendo como base centros vinculados a instituições como é o caso do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ressalta-se que o o tratamento deve ser efetuado por uma equipe multidisciplinar, seguindo a Resolução 1652/2002, do Conselho Federal de Medicina.
Referências:
ATHAYDE,
Amanda V. Luna de. Transexualismo masculino. Arq Bras Endocrinol Metab. [online].
ago. 2001, vol.45, no.4 [citado 01 Junho 2005], p.407-414. Disponível
na World Wide Web: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0004-27302001000400014&lng=pt&nrm=iso>.
CASTEL, Pierre-Henri. Algumas reflexões para estabelecer a cronologia
do "fenômeno transexual" (1910-1995). Rev. bras. Hist. [online].
2001, vol.21, no.41 [citado 01 Junho 2005], p.77-111. Disponível na World
Wide Web: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882001000200005&lng=pt&nrm=iso>.
CID-10. Disponível na World Wide Web: <http://virtualpsy.locaweb.com.br/cid.php?ltr=T>.
DSM-IV. Disponível na World Wide Web: <http://virtualpsy.locaweb.com.br/dsm_janela.php?cod=118>.
Web sites recomendados sobre o assunto:
http://hosting.pop.com.br/glx/casadamaite/sexualidade/trans/web/index.html
http://ai.eecs.umich.edu/people/conway/TSsuccesses/TSsuccesses-Portuguese.html
http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2002/1652_2002.htm